sábado, 15 de maio de 2010

O culpado

- Saia daqui! A culpa é toda tua!
Como não fosse embora, entretanto, prosseguiu:
- Não fosse por ti, minha vida não seria esta miséria sem precedentes! Certamente talvez não estivesse um mar de rosas, claro, mas tampouco estaria assim - fastidiosa!
Tu me fizeste perder tudo!
Se agora me encontro sozinho; se não encontro singela amizade, conforto na companhia de alma viva, é por tua causa! Por todas as vezes que me fiei em ti, em detrimento de todos os outros! Por acreditar na tua palavra - que estavas certo, que não deveria confiar em outrem, que a absoluta maioria deste mundo tende ao mais estúpido erro, e repetidas vezes!, enquanto tu, agora e supostamente todas as vezes passadas, estás e sempre estiveste certo! Impediste-me de comungar! (A)tiraste-me do morno leito da sociedade para o estrado frio, incômodo e sequer ao menos digno da perscrutagem solitária!
Arrancaste de mim minha humanidade! Transformaste-me nessa criatura repugnante, incapaz si própria de suportar-se!
E tudo isso que me fizeste construir!? "Castelos", dizias, impelindo-me à burra empresa de construi-los - essas monumentais alegorias à inocuidade humana, o mais perfeito fruto de seu suor e diligência!, incapazes entretanto de trazer agora um mínimo de satisfação ou recompensa ou paz que seja à tola alma que os levou a cabo! Vê! Vê como a mais dispersa brisa os faz tombar! São meus sonhos que se desfazem em pó - e, com eles, minha sanidade! A sanidade que tu foste incapaz de manter, cultivar, acalentar! Desfeita em pedaços, sob os escombros desta fria pusilanimidade!
Não, não... Não! E aos poucos por quem posso dizer haver-me sentido perto de amar, os poucos que estiveram perto de arranhar a superfície deste coração que tu petrificaste, também tu fizeste questão de, nefastamente, com teus modos sempre meticulosos, ardilosamente arquitetados de maneira a parecerem nobres, afastar! Cuidaste com que eu os impelisse ao mesmo inferno que tu me apresentaste - este mundo de portões tão bonitos e sedutores, mas que demasiado rapidamente se fecham quando adentrados, aprisionando os pobres infelizes que o fazem nisto que se revela o verdadeiro avesso da paz ou beleza ou felicidade! Não, eles ou não os adentraram ou apenas tão pouco tempo ali sobreviveram - ao contrário de mim, que, por inata teimosia ignóbil, ou - mais provavelmente - pela crueldade com que me alimentas com doses homeopáticas de vã esperança, simplesmente, para meu infortúnio maior e derradeiro, simplesmente não tenho o mesmo destino!
Não posso perdoar-te, não quero perdoar-te -
e não vou perdoar-te!
Despertei para o que há de mais terrível na experiência humana, e a culpa é toda tua!
Ofegou. O réu de todas as suas acusações permanecia ali, impassível - não, sua imagem ao espelho não estava menos serena do que alguma vez antes já estivera.

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