Lá estavam, novamente.
Otávio havia lutado contra aquele rapaz antes e sofrera uma derrota copiosa. Ainda se lembrava: fora de tal modo subjugado que mal conseguira mover-se: as poucas técnicas que conseguiu iniciar foram repelidas, quando não eficazmente contra-atacadas, e os golpes que o rapaz desferiu foram quase todos capazes de derrubá-lo.
E agora enfrentar-se-iam novamente.
Lembrava-se ainda de haver pensado que simplesmente não tinha chance contra o oponente; que ele simplesmente era muito melhor.
Mas não ia entrar na luta com a intenção de perder.
O sinal para iniciar soou; o cumprimento de mão, sinal de cordialidade e respeito entre judocas, foi dado, pelo que a luta efetivamente começou.
Não iria perder. Pelo menos não do mesmo jeito; não sem tentar.
Sondou o oponente, descrevendo um círculo ao seu redor e procurando uma oportunidade, uma abertura em sua postura. Mas não havia; a dele era uma postura muito defensiva, sempre ambas as mãos rente ao corpo a protegê-lo.
Sempre as mãos rente ao corpo a protegê-lo.
Sempre - exceto quando Otávio tentava fazer sua pegada, pelo que este contra-atacava e prendia Otávio como que a uma parede.
Otávio deu dois passos para o lado, respirando e preparando-se.
"Isso não vai se repetir", disse para si mesmo - e pegou.
...Pegou a manga esquerda do seu adversário e segurou como se sua vida dependesse disso.
Otávio era destro e o outro canhoto e mais forte, pelo que na briga de pegadas aquele conseguia impor a sua. Então, se era assim, Otávio ia se adaptar - e matou a mão esquerda do adversário com a sua direita, fazendo também uma pegada de canhoto.
E se moveu, porque se ficasse parado o outro ia usar de sua força. Passo em círculo, passo em círculo, puxa, prepara a entrada...
...Uma tentativa de rasteira do oponente por dentro de sua perna esquerda! Esquivou, e um outro ataque por dentro da direita! Saltou para o lado, perdeu o equilíbrio - e mais um ataque, um golpe de quadril se aproveitando de sua instabilidade!... Mas Otávio caiu de joelho - por pouco!
Levantou-se, ambos agora distantes e a entreolharem-se. Havia conseguido descobrir uma brecha na postura do oponente, mas isso não era tudo. Aquele ainda era forte e experiente; não seria fácil.
A luta continuou. Seguiu-se uma sequência de ataques de ambos os lados, o adversário incapaz de impor sua pegada ideal e vacilando nos ataques, e Otávio com as dificuldades inerentes ao lado menos apto de seu corpo.
Até que o oponente o olhou nos olhos. E puxou!
Otávio logo soube o que viria - um daqueles terríveis golpes de quadril, e se não agisse rápido seria atirado ao ar e de costas ao chão!
...Então deixou-se puxar! - e, conforme o oponente iria virar-se, travou-o com o corpo, jogou o corpo para a direita e desequilibrou o oponente.
O-soto-gari - a grande rasteira - com a esquerda, era isso que tinha que fazer!
E fê-lo!
O oponente tremeu, desequilibrando-se enquanto olhava Otávio incrédulo nos olhos e este o varria com a perna esquerda, puxando seu braço esquerdo rumo ao chão e o empurrando para trás com o outro, fazendo-o cair pesado sobre o tatame ao som potente do amortecimento de braço!
O gongo soou.
Ippon.