No início eras só mais um planetinha a conquistar. Parecias bonito, mas não tão diferente dos demais, e a perspectiva de conquistar-te aprazia meu ego e me levou a essa empresa. Eras aceitável, afinal.
Subjugar-te foi fácil. Sequer tinhas como contra-atacar; teu povo, alegre, aceitou de boa vontade o grilhão que eu lhe impunha. Tal foi que pude fazer o que queria, e me parece que mesmo os erros mais crassos de dominação me teriam sido recompensados com o sucesso em domar-lhes. Nem precisei dar a ordem, e já cartazes meus figuravam espalhados por tuas cidades...
Mas tive que partir, a cumprir com outras responsabilidades esmagando uma revolta em um outro planeta sob o controle de meu império. O processo contigo - em vias de dominação - ainda não estava completo, claro - faltava instalar armas, treinar teus nativos e tantas outras coisas mais -, mas isso poderia facilmente ser feito dali a algum tempo. Pelo que parti, feliz e satisfeito com tua conquista segura que trar-me-ia fama e confiança para as empreitadas futuras.
Assim que intentei pacificar o outro planeta com presteza, pensando que não seria má ideia terminar tão rápido quanto possível depois o trabalho contigo. Mas o trabalho de pacificação é demorado - exige a captura e execução exemplar de líderes do movimento, um longo processo de redessentivização da população, a gradual imposição e aceitação do poder alheio...
Mas terminou, e pude enfim voltar ao trabalho interrompido! Ah, havia tanto o que fazer em tuas terras! Era o que pensava, e com efeito não o que se passava. Ao te encontrar me deparei com tudo já terminado por teus nativos, que trataram de dar prosseguimento a meus trabalhos enquanto estive fora. Assim que fui recebido por uma colossal parada militar em teu seio, com demonstrações de poder e apresentações de tuas crianças e teus jovens e adultos a saudar-me. Tudo estava pronto e tu, planetinha, feliz em receber-me. Os dias faltantes destinados à tua conquista foram assim usufruídos em meio a teu - meu! - povo, conhecendo-te e realizando festas e cerimônias e banquetes.
Até chegar a hora da partida. Existem outras prerrogativas como conquistador do universo, e não se pode prolongar a estadia em um planeta "ad infinitum" - principalmente quando a conquista desse já se deu. Pelo que tinha que partir...
Tinha que partir daquele planetinha que uma vez fora só mais um planeta qualquer, e que se mostrara tão único e especial e digno de minha atenção. Daquele planetinha cuja conquista trouxera consigo também, por que não?, amor, mas que encontrava-se tão distante da sede do império que dificilmente receberia minha visita - oficial ou não - novamente. Tinha que partir de ti.
E o fiz.
Tanto tempo depois, agora, pouco me importa se vá a conquistar o universo ou o multiverso ou tudo que exista ou venha a existir... Muitos afirmam que, talvez devido à idade avançada, à já vastidão de seu império ou à crescente complexidade das tarefas burocráticas, o imperador perdeu o ímpeto dominador; mas a verdade é, antes de tudo, uma só: uma parte fundamental dele ficou em ti, planetinha.
Que tão docemente me conquistou.