domingo, 25 de setembro de 2011

- Sou um cara de muita, muita sorte.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Destruidor de mundos

Depois de adormecer, nada foi igual. Ou antes era, ainda que não devesse ser: abriu os olhos, e estava diante daquele, justo aquele!, telefone público. Ao redor, pessoas e vozes ininteligíveis; no telefone, uma senhora que não conseguia compreender.
Estava no início.
Travou o telefone no gancho, certamente transmitindo uma rudeza que agora, desta vez, já não lhe preocuparia. Outras coisas passavam por sua cabeça; tudo - pessoas, lugares, sonhos, prazeres, sonhos, pessoas, sonhos, sonhos, sonhos, pessoas, pessoas, castelos no ar -, tanto dentro quanto fora dele, se desfazia.
- Eu não pedi por isso - era o único que conseguia pensar -, eu não pedi por isso.
Viu um milhão de mundos diante de si.
EU NÃO PEDI POR ISSO
Viver era matar infinitas vidas a cada segundo a cada momento

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

SOS

Sentia o amigo cada vez mais distante, e não sabia por quê.
Não percebia que o afastamento era tanto uma gentileza quanto um pedido de ajuda.

domingo, 11 de setembro de 2011

Nocaute

Olhou o garoto.
Que garra, que vontade! Não o via com frequência treinando por lá, e sequer parecia ter muita experiência - não tinha esse traquejo próprio que se adquire quando se luta faz tempo, essa espécie de standartização que ocorre invariavelmente quando se lapida a técnica metódica e laboriosamente -, mas naquele treino, o principal do dia para os maiores lutadores da equipe, lá estava ele e dando trabalho para os topes da academia (houve quem lhe atribuísse um 10 a 9 contra o Digão, o favorito do pessoal, num sparring, mas certamente a pessoa não devia saber nada de scoring).
Deteve-se a olhar o garoto: músculos trabalhados, apesar de nitidamente não por profissionais; inteligência nos golpes, ainda que carentes de aperfeiçoamento; e sobretudo os olhos.
Os olhos.
Socava e se movia e apanhava e caía, se levantava e apanhava e tinha sempre aqueles olhos. Olhos de quem não se deixa abater por pancada que seja, do oponente ou da vida; olhos de quem sabe o que quer e que quer com violência, de quem ainda que apanhando vai continuar de pé até que as pernas aguentem; até o nocaute.
Nocaute.
Se aproximou do ringue, vendo o pessoal que estava assistindo a luta levantar o garoto e levá-lo para fora, o oponente do outro lado exausto e consternado. O garoto dera trabalho o tempo inteiro, e todos detestam esses tipos que lhes fazem sair da zona de comforto - ainda que sair da zona de comforto, e isso estranhava que todos esquecessem com tanta facilidade, seja essencial ao crescimento.
Depois veio a saber que o garoto não era tão garoto assim; era uns bons anos mais velhos que a maioria dos jovens que treinavam no projeto - do qual sequer participava, na verdade: não apenas já não era da idade permitida como trabalhava para manter a própria família, o que não lhe permitia as horas de dedicação ao treino necessárias. As aparições esporádicas se davam justo em eventuais folgas do trabalho, e soube que eram a convite de conhecidos - por essas e outras razões, apesar das qualidades que lhe punham como potencialmente se não um campeão, pelo menos um grande lutador, não tinha suporte.
Não tinha quem o treinasse.
Vocação e vontade eram essenciais à vitória; mas nesse ramo, assim como na vida, não ter quem lhe deposite a fé é uma sentença quase certa ao fracasso.
Olhou ao fim do treino o garoto indo embora, uma bolsa de gelo sobre o olho roxo.
Que lástima.