segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A Mais Feroz de Todas as Bestas

Hoje, um poema à tão desconhecida - porém monstruosa - capacidade humana de sobreviver e, por que não?, moldar a realidade à sua vontade.
Porque há dentro de nós uma truculência absurda; e domá-la é crescer. 

A Mais Feroz de Todas as Bestas

Um terrível canino trespassa meu peito,
e posso mesmo ver minhas tripas -
que, sanguinolentas, projetam-se para fora.

Já não sinto meu braço;
dentes quebrados caem enquanto urro.
Sequer já tenho pernas, talvez.

A aberração - o ser a me aniquilar,
com seus dentes e espinhos e tentáculos -
me observa
assustada

porque sorrio.

O maior terror deste mundo
é a mais pueril das coisas
ante
mim.

- A mais feroz de todas as bestas jaz dentro de nós,
humanidade.

(André Ribeiro)

Seien wir Übermensch!

sábado, 24 de janeiro de 2009

Legalismo

"Ei, não faça isso! Não vê o péssimo exemplo que está dando para o garoto?" disse a senhora alemã, referindo-se ao suposto péssimo comportamento de um amigo meu quando de sua travessia em uma rua, o sinal vermelho e uma criança a olhar tudo.

Tendo ouvido essa história, lembrei-me de outros casos de igual estirpe - pessoas a defender o legalismo puro e simples em suas diversas formas. E com toda a certeza esse não é um assunto distante de ninguém - pois toca em temas e situações bastante presentes em nossas vidas; como direitos autorais, obediência civil e mesmo uma travessia inocente quando o sinal está vermelho e não vêm carros.
Lembro-me particularmente de um caso que presenciei em um fórum, onde um fulano defendeu ferrenhamente a não confecção de cópias de objetos protegidos por direitos autorais - tanto em larga escala quanto relativamente à reprografia aparentemente mais pueril que um estudante faz de um livro para poder estudar.
Essa postura de conformidade incondicional às leis me deixou curioso. Eu a tinha exercido quando mais jovem, mais com o passar do tempo um senso diferente se desenvolveu; um senso a meu ver mais razoável, ainda que não estritamente posto no papel ou explícita e meticulosamente criado.
Legalismo puro e simples, hein?
A meu ver, sinceramente, sequer há como gastar mais que um parágrafo com um tema assim - parece-me bem evidente que obediência irrestrita para com a legislação não é razoável. Porque por mais que legisladores fossem pessoas as mais razoáveis possíveis (o que, a meu ver, é algo distante da realidade), certamente ainda assim haveria aqueles momentos no qual leis incoerentes seriam criadas. E se isso não fosse o suficiente, para derrubar o legalismo puro e simples bastaria citar casos de obediência civil que vão diretamente contra nosso bom-senso - como por exemplo (bem clichê, é verdade, mas estou com preguiça de pensar por mais que alguns minutos - e de qualquer modo trata-se de um contra-exemplo perfeitamente válido) com relação às ordens nazistas de extermínio em massa.
Pronto... essa idéia posta por terra, acredito que vale a pena considerar o ilegalismo brando - em outras palavras, uma desobediência às leis quando se as julgar inapropriadas em um determinado contexto. Essa capacidade avaliativa entretanto parece-me algo pessoal, e por isso não acho interessante expô-la como que em um monólogo aqui.
Apenas posso antecipar que certamente haverá quem seja contra a idéia, dizendo que se todos procederem assim o que teríamos seria um grande estado de casa-da-mãe-Joana - pois dependendo da situação muitos casos poderia haver onde tal comportamento não fosse exercido com responsabilidade. E a isso respondo que as mesmas pessoas que procederiam desta forma - isto é, agindo de modo deliberadamente insensato - muito provavelmente não se absteriam de desobedecer as leis, caso esse debate não fosse travado. Ou não?
Mas, no fim, o que me assustou quanto a essas coisas foi a mera idéia apresentada por alguns segundo a qual não temos capacidade de discernir sobre certos assuntos; como se a mera existência de alguém mais conhecedor que você o coibisse de fazê-lo.
Qual é, isso equivale a relegar seu pensamento a outra pessoa!
(Ok, ok; entendo que haja pessoas dispostas a isso. Mas eu, pessoalmente, repudio a idéia.)

P.s.: Xi, é impressão minha ou acabei de fazer apologia ao crime?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Véspera Rubra

Acabo de assistir a Sociedade dos Poetas Mortos - filme bem antigo, típico sessão-da-tarde; e entretanto o qual eu nunca tinha visto por completo. Ótimo filme. Inspirante!
Segue então, em homenagem às idéias do filme e a nós, tolos humanos - com nossos amores e sonhos e patéticos momentos de brilhante mediocridade - um bem devido poema!

Véspera Rubra

Do amor,
uma hecatombe.

Este, a flor do homem mais linda,
murcha,
seca.

Até o oblívio
um passo só - ou antes vários
sutis,
indiferentes,
ignominiosamente impensados.

Assim que quando não mais restarem pétalas;
apenas retorcidos espinhos
e um detestável cheiro de sangue
seco
dirás, pois:

"que fiz?"

Tu tudo e nada fizeste.
E a verdade é que não há neste mundo pessoa isenta
de gravíssima culpa;
ainda que no entanto alguns,
uns tolos alguns,
a si tentem redimir.

Com a iminência do nada,
palavras antes engolidas escapam
e soam ocas
a quem as ouve.

(André Ribeiro)

E em verdade eu teria gostado de postar algo mais.... vivo, animado. Mas receio que por enquanto vocês devam satisfazer-se com isso; porque meu eu-lírico ainda se impressiona - e muito! - com sua auto-superação e nascença pela dor.
Pelo que então vocês, pobres leitores, deverão resignar-se e tremer ante minha fúria poética!
Oh captain, my captain!

sábado, 10 de janeiro de 2009

Titãs

Na hipótese de realmente poder haver almas nesse mundo a procurar o bem-estar alheio acima do seu, seria com toda certeza bom para estas mesmas acercar-se de outras com o mesmo ideal.
Agora sobre a existência de pessoas assim, acredito ser muito difícil dizer - o fato é que há as que tentam.
Já quanto ao mérito dessa postura - tentar -, trata-se de algo profundamente relativo - não é possível, simplesmente por se tratar de uma análise pessoal, taxá-la categoricamente como melhor ou o que seja, assim como não faz sentido dizer que a postura de alguém egoísta é ruim (seria ruim em que sentido? "Ruim" subentende análise de valor, de princípios, e estes são bem pessoais).
O que acredito ser possível dizer, isto sim, é que a existência de tais pessoas realmente favorece um bem-estar coletivo; e se em maior número, tanto melhor.
Já em minha opinião, ao menos, a validade de um tal comportamento dito "altruísta" só se dá realmente quando quem o exerce o faz com ferocidade (esta é uma palavra deliberadamente escolhida; espero logo entendam o porquê); porque também acredito ser estritamente necessário cuidar de si - já que, dito de curto modo, é precisar estar bem para (continuamente) trazer o bem. Assim, o ponto em que estes dois arquetipos de comportamento se tocam seria aquele no qual a pessoa é tão absolutamente segura de si que realmente o bem-estar alheio se tornaria o seu; não se trataria de um "mártir", a machucar-se pelos outros - trataria-se com efeito de um guerreiro, alguém que genuinamente encontrou na felicidade alheia a sua e luta ferrenhamente por isso.
Esse último comportamento sim me fascina.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Sobre idéias e opiniões

Antigamente, eu tinha o hábito de abster-me de comentar sobre diversas coisas - seja por crer não possuir muito embasamento no assunto, seja por ter uma certa inclinação em observar a análise alheia e perscrutar-lhe. O fato é, entretanto, que em grande parte era por haver muito da idéia de não falar besteira sobre o que não se sabe; por não crer valer a pena dar a cara a tapa.
Hoje em dia penso diferente; há sim que dar a cara a tapa.
Quanto a fatos ou idéias mais factíveis de ser discutidas, é definitivamente saudável fazê-lo! Não se pronunciar a respeito é uma ótima oportunidade para simplesmente manter-se alheio às próprias falhas no pensamento e ainda acreditar estar de posse de uma teoria mais coerente - o que pode acabar sendo uma grande ironia!
Já no tocante a opiniões - as quais, bem, todos sabem ser pessoais -, discuti-las é também uma ótima oportunidade. Não com o intento de impor uma verdade pessoal, evidentemente, já que neste âmbito sequer faz sentido falar disso; mas, sim, com o intuito mostrar ao mundo como você pensa e porquê você o faz assim, abrindo então margem para que outros o façam em resposta e no fim se tenha uma grande partilha de idéias - e o intercâmbio de idéias nunca é má coisa. Na pior das hipóteses todos continuarão a pensar o mesmo, mas ainda assim terão aprendido sobre o pensar do outro - o que é já um saldo positivo.
(Pronto, podem discordar - mas que seja apenas um tapa, e não um soco!)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Busílis Humano

Bem; como esse também é um espaço para a arte, e eu me vi rindo sozinho pela coincidência de encontrar um poema meu entitulado Busílis Humano (e talvez não seja bem coincidência, na verdade, mas sim um indício de que esta me é uma palavra recorrente... enfim!), que se poste aqui o primero poema!:

Busílis Humano

Isto, isto tudo,
não é nada
diante de mim.

Sou o fundo da psiquê humana
e também o seu cume;
o fogo prometéico -
trago a vida,
a consumo.

Distante de tudo que não concerne à vida e à morte,
eu mato e morro;
e de meu sangue puramente maculado
brotam as sementes
do mundo.

Lanço, da vastidão de meus limites inexatos,
um desafio a esta cria bastarda, a consciência humana:
decifra-me -

ou devoro-te.

(André Ribeiro)

Uma das melhores partes é, muito tempo após escrever os poemas, lê-los e imaginar o contexto e razão que os levaram a existir. Os desse acima foram bem significativos, por sinal.
Ok, hora de trocar umas idéias.
Até mudei as cores dessa bodega; estava sóbrio demais e, com meu estilo de escrita, poderia muito bem parecer um negócio por demasiado intenso e arrastado - o que de fato é, mas também o pode ser com um pouco de ânimo e marotagem!
Afinal seu nome é "O busílis", e posso muito bem argumentar que um dos pontos centrais da vida é saber quando rir. Não?
Hehe, muito bem... Deu para cortar um pouco o gelo!

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Apaixonadamente - apesar de tudo

"O homem é assombrado pela vastidão da eternidade, e por isso nos perguntamos se nossas ações ecoarão através dos séculos.
Ouvirão estranhos nossos nomes após havermos morrido, e imaginarão quem fomos? Com quanta braveza lutamos, e quão intensamente amamos?"
- O narrador de Tróia, película de 2004.

Para uma primeira vez escrevendo aqui, optei pelo tema da grandeza e da eternidade; e o fiz por reiteradamente ver o caso de pessoas desiludidas com a vida - e sua suposta falta de significado.
Porque às vezes as pessoas vêem seu deus sumir; ou percebem que a ganância é uma das maiores forças motrizes do ser humano; ou descobrem ser o amor algo não tão semelhante assim ao que se ouve nos contos de fada ou se vê na televisão.
E tudo isso pode ser muito bem verdade. Não podemos dizer, mas é simplesmente muito provável que sejamos o lixo do universo; um aglomerado de átomos a apresentar comportamento orgânico e "consciente" justamente porque a probabilidade infinitesimal de isso ocorrer haveria de, em um intervalo de tempo suficientemente largo, acontecer. Nosso comportamento cretino, simplesmente advindo do fato de que os assim a proceder sobreviviam; e nosso amor assim carnal e egoísta, proveniente da necessidade de assegurar a prole.
Sim: ao aprofundar-se nesses pensamentos, é bem possível que alguém perca a energia, o encantamento com o viver.
Mas a questão é - deveria mesmo?
Não fazem todavia as idéias humanas absoluto sentido para nós? E certamente todas têm suas raízes em motivações puramente físicas - mas nós, com nosso pensar e nossos sentimentos, não as estendemos, e por vezes com frequência, a um nível maior?, um nível muitíssimo maior?
Idéias como amor, amizade, justiça ou o que sejam - todas crescem à medida que as alimentamos com nossos desejos, nossos pensamentos; e justamente por as acharmos belas, dignas de ser cultivadas - ainda que não tenham origem ou reflexo algum no mundo físico.
Essa é justamente a chama da humanidade: nossa capacidade de sonhar; com o dom da consciência obtivemos a capacidade de criar, e encher a nossa existência de um significado tão intenso que por ele arriscaríamos tudo.
O mundo e a posteridade são, definitivamente, dos apaixonados - homens que lutem pelo que querem, não arrefeçam e se esforcem ao limite por seus sonhos; homens que justamente pela intensidade com que se apaixonaram deixarão em nossas memórias de fato uma marca.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Apenas a título de introdução: a palavra busílis indica o ponto central na resolução de um problema; assim, pensei-a apropriada como título desta página, já que aqui tentarei destrinchar problemas em suas mais variadas formas - a do homem, a da arte, a da comédia (porque com efeito este nome só foi escolhido por outros já haverem sido utilizados, por exemplo!) etc.
E os textos daqui estariam muito bem confinados a folhas de papel, na verdade, se a internet não fosse um bom espaço de comunicação. Trata-se de uma pueril tentativa de deixar uma marca nesta rede mundial de computadores!