sexta-feira, 22 de abril de 2011

Segunda chance

E se lhe fosse dada uma segunda chance? Poder mudar tudo, corrigir os erros do passado, afastar seus fantasmas... uma chance de viver a vida como esta deveria ter sido?
Vivera até então com o estigma de haver faltado com aqueles que lhe eram mais próximos, perdendo quem lhe fora mais querido no processo - mas, com efeito, apesar de ansiar pelo perdão e dedicar seus dias à inócua, porque impossível, busca pela reparação dos danos passados, jamais, sequer em sonhos, havia cogitado como seria poder reescrever a história.
Olhou o céu, as estrelas ofuscadas pela luz artificial da cidade - e viu, não obstante, o curto voo de uma estrela cadente.
Não podia fazê-lo.
A verdade é que desde então sua vida havia sido construída sobre esses erros. Se seu pecado lhe arrancara aquilo que uma vez lhe fora (e ainda era) tão importante, passa que sob os auspícios deste mesmo pecado laços se haviam formado que agora já não mais poderia desfazer. Laços profundos, em vidas nas quais involuntariamente e sem pretensões nesse sentido (como poderia tê-las, ou mesmo permitir-se desejar ter, depois de tudo?) entrara, e que, se não apagavam a triste sombra de sua história, a bem da verdade iluminavam-na.
Desejava o perdão, mas não podia simplesmente apagar o passado - isso porque devido a este mesmo passado outros agora viam nele e, mais importante, com ele o que ele apenas pouco a pouco voltava a ver.
Um futuro.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Redenção

Era chegado o dia.
Enfim.
O exílio durante anos não diminuira o que sentia por sua terra. O distanciamento forçado, o modo como fora tão abruptamente julgado e condenado por todos, a forma breve e surda como laços foram desfeitos, como rostos conhecidos se tornaram indiferentes - tudo isto ainda estava muito vivo em sua cabeça, terrivelmente vivo, ao ponto que o julgamento alheio se tornara o seu próprio e este já não podia perdoar a si mesmo; mas, ainda assim, não podia esquecê-los - não conseguia, e tampouco queria.
Até hoje sonhava com aqueles olhares atravessados, aqueles rostos que se negavam a reconhecê-lo. O desamparo de ser abandonado - das feridas a maior que talvez já sentira.
Mas agora precisavam dele; a própria existência destes dependia de que este assumisse um risco ao qual outros não se atreviam. Fá-lo-ia.
Não para ser reaceito, entretanto. Há nesta vida crimes que não merecem perdão; e ao cometer, ainda que involuntariamente, um destes, havia se desligado irremediavelmente de qualquer possibilidade de convívio com os seus. Não, não havia qualquer esperança nesse sentido.
Não havia redenção.
Tinha um sorriso quando partiu para o oblívio.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Os "não"s mais necessários são também os mais difíceis.
Há que saber dizê-los.

Tênue linha

Muitas vezes a única linha que separa o homem da barbárie é um pequeno gesto de conivência ou coação - de um chefe, de um parceiro, de um amigo.
Os séculos passam, mas a essência do homem é sempre a mesma.

Duas realidades

Sorveu um gole do seu suco de laranja. Sentados ao banco da praça, podiam acompanhar todo o movimento daquele fim de tarde de feriado - casais trocando carícias, crianças jogando bola na grama, adultos cuidando de preparativos, o sol sobre tudo e todos tornando o dia tão gostoso.
O pequeno rádio quebrava a harmonia do lugar com notícias estranhas de lugares distantes.
- Ditadores, terrorismo... Guerra. Dá para acreditar nesse trem?
Bebeu mais um pouco do suco; adorava aqueles pedacinhos de laranja que vinham junto.
- Nem, mano. Nem uma arma eu nunca vi.

Deitou o dedo. Clique, clique, clique.
Três silhuetas caíram.
- Vai, vai, vai! Só falta o cara lá! - gritou a voz ao lado.
Tardou um pouco a entender, o corpo antes mesmo já seguindo o caminho da trilha. Nem ouvia mais o barulho dos tiros. Aliás: ouvia, mas não escutava. O dia-a-dia no exercício da profissão lhe pusera naquela situação cretina de explicar que era disparar um fuzil com a mesma naturalidade de quem bate o ponto ao chegar no trabalho.
Sua rotina não era a única assim, e atravessava a vida de milhões de outros.

domingo, 17 de abril de 2011

Um outro nível

Tem gente que é ou 8 ou 800.

Ímpeto

Não sabia explicar de onde vinha toda aquela vontade de ser o melhor, de superar a tudo e todos - de mover o mundo a cabeçadas se preciso.
Era quase... instintivo.

Ossos (quebrados) do ofício

Breve história dos machucados de um judoca no transcorrer de 2 anos de treino*:
- Feridas nas juntas dos dedos;
- Calos nas juntas dos dedos;
- Calos maiores nas juntas dos dedos;
- Hematomas;
- Dedos torcidos;
- Dedão do pé torcidos;
- Dedão do outro pé torcido;
- Hematomas;
- Queimaduras (raspando o corpo no tatame);
- Hemorragia nasal (quedas de amiguinhos em lugares infelizes);
- Pé direito torcido;
- Hematomas;
- Cóccix machucado (constrangedor comentar a respeito);
- Bíceps direito contundido;
- Ombro esquerdo contundido (golpes de quadril em amiguinhos de mais 100 kg);
- Pescoço contundido;
- Hematomas;
- Pé esquerdo contundido;
- Mais hematomas.
* Machucados devidamente exagerados, com uso da licença poética, para efeitos de lirismo.

terça-feira, 12 de abril de 2011

- Lucía S. (editado sem permissão).
O fato de haver quem tenha se acostumado a não fazer as coisas bem-feitas e de que você tem que estar preparado para lidar com pessoas que não fazem as coisas bem-feitas não quer dizer que você não deva fazer as coisas bem-feitas.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Dúvida

O que fazer com as promessas que, com o tempo, perdem o sentido?

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Aspirações

Há que acreditar nos próprios sonhos...
É o que nos permite ir além.
A grande maioria não dirá que o impossível é possível. Até porque, para a grande maioria, talvez realmente não seja.

sábado, 2 de abril de 2011

Não se alcançam as estrelas sem antes mirar-se alto.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

E a verdade, afinal, não era uma: que, ainda que distante, se sentia bem?
Só que então se instalara a distância.
"A distância muda tudo", dizem - e costuma ser bem verdade. E, com efeito, ele não acreditava em relacionamentos à distância.
Mas acreditava nas pessoas.
O fato é que o tempo juntos havia sido único. Como dizer que a proximidade e os momentos juntos não haviam sido bons?
Que poder atirá-la pelo ar, aquele corpo tão leve, e cair na cama, rindo, não era uma das coisas mais gostosas que já fizera?
Que ouvir aquele "lero lero" tão bobo não lhe fazia derreter?
E aquele sorriso, afinal?
Ainda tentava se esconder a seu modo, a tolinha. Claro que ele percebia o brilho nos seus olhos - não é difícil, quando os seus também estão a brilhar.