E se lhe fosse dada uma segunda chance? Poder mudar tudo, corrigir os erros do passado, afastar seus fantasmas... uma chance de viver a vida como esta deveria ter sido?
Vivera até então com o estigma de haver faltado com aqueles que lhe eram mais próximos, perdendo quem lhe fora mais querido no processo - mas, com efeito, apesar de ansiar pelo perdão e dedicar seus dias à inócua, porque impossível, busca pela reparação dos danos passados, jamais, sequer em sonhos, havia cogitado como seria poder reescrever a história.
Olhou o céu, as estrelas ofuscadas pela luz artificial da cidade - e viu, não obstante, o curto voo de uma estrela cadente.
Não podia fazê-lo.
A verdade é que desde então sua vida havia sido construída sobre esses erros. Se seu pecado lhe arrancara aquilo que uma vez lhe fora (e ainda era) tão importante, passa que sob os auspícios deste mesmo pecado laços se haviam formado que agora já não mais poderia desfazer. Laços profundos, em vidas nas quais involuntariamente e sem pretensões nesse sentido (como poderia tê-las, ou mesmo permitir-se desejar ter, depois de tudo?) entrara, e que, se não apagavam a triste sombra de sua história, a bem da verdade iluminavam-na.
Desejava o perdão, mas não podia simplesmente apagar o passado - isso porque devido a este mesmo passado outros agora viam nele e, mais importante, com ele o que ele apenas pouco a pouco voltava a ver.
Um futuro.
