terça-feira, 31 de agosto de 2010

Impressões sobre a vida

...e o judô, parte II.
Quisera tanto estar ali!
Preparara-se para o campeonato durante meses, cimentando o caminho pacientemente com o suor de seu corpo, com a fria diligência dos obstinados.
E estava feito.
O oponente tinha vez e meia o seu tamanho e possivelmente a mesma proporção em termos de peso, mas durante um breve vacilo seu Otávio encaixara-lhe uma manobra de sacrifício, caindo ao solo com o braço do oponente firme entre seu corpo e pernas - uma chave de braço, também chamada "juji gatame", aplicada com suficiente grau de técnica e mais que capaz de impor à articulação do cotovelo do oponente uma rotação maior que esta é capaz de suportar.
Mas não esperara por algo: o oponente não batera.
Não batera.
Não bater significa não desistir, e nos campeonatos isso invariavelmente implica em terminar de render o oponente através da finalização da técnica; no caso, quebrando-lhe o braço.
Seu olho ardeu. Suor escorrera.
O oponente ainda estava estático, e Otávio podia ver em seus olhos o desespero de quem sente a desgraça iminente. E não batera, o desgraçado! Otávio estava exausto, aquela uma de suas últimas chances de obter a vitória, o campeonato!
E o desgraçado não batera.
Mordeu os lábios. Respirou fundo. Ouviu o surdo barulho de articulação sendo forçada além do que deve...
E soltou.
No mesmo instante foi empurrado para longe, a luta sendo interrompida para que os judocas se posicionassem novamente - em menos de segundo a vitória, há tão pouco garantida, estava agora longe. E durante aqueles breves segundos de intervalo se encararam, e Otávio não soube o que o olhar insondável do oponente queria dizer.
Com toda probabilidade julgava-lhe tolo, deduzia.
Mas não o podia fazer. Um braço quebrado é mais do que apenas um braço quebrado - e para um atleta, para um judoca, uma lesão dessas era uma tormenta das piores. Não - ainda que aquilo fosse uma arte marcial, simbolizasse a guerra e naquele interim tivesse a liberdade para mitigar seu adversário, ele não o faria.
Não podia. Não se não se tratasse de derradeira instância - vida ou morte! -, e mesmo nesse caso não saberia como reagiria. Quem diria então em um... em um campeonato!
O sinal para continuar foi dado.
Passou a mão pelo rosto, o cabelo enxarcando-lhas de suor. Sabia que, em termos probabilísticos, o oponente não faria a mesma coisa.
Mas não importava.
Arregaçou as mangas, respirou fundo novamente. E avançou.
Se era para vencer aquela luta, se era para vencer aquele campeonato, se era para conquistar seu sonho - teria que ser do seu jeito.
E seria!

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