Colheu do chão a flor que ali estava. Rosas sempre foram objeto da apreciação do pai - no frio, sob as mais espessas camadas de azul, estas podiam sempre despontar em um vermelho fulgurante. O pai gostava dessas coisas, e sempre parecera atribuir-lhes algum simbolismo que nunca explicava. Talvez pensasse que explicações acabassem com a magia do significado.
Velho excêntrico, disto ninguém duvidava. Sempre tivera suas doidices.
Olhava a rosa, o pensamento longe. E enquanto lembranças iam e vinham, tudo parecia fazer e não fazer sentido. Crescera ouvindo do pai o seu desejo de viver bem e intensamente, gozando a vida e seu corpo e suas emoções tanto quanto a natureza permitisse. A vida tinha seu ciclo, e o homem tinha aprendido a alterar este ciclo, fazendo-o fundamentalmente de maneira benigna - mas também, como não era incomum da natureza humana, a utilizá-lo de modo nocivo para si.
Sentiu um gosto amargo quando lembrou do sumiço do pai. Nada, senão um bilhete tolo com uma poesia evocando a necessidade de "passar a tocha"! Teve vontade de gritar, e com efeito sentiu algo em seu punho quebrar-se quando socou o corrimão de ferro da fonte ali próxima.
Velho estúpido!
É bem verdade que nunca tivera reclamações com relação ao pai. Crescera em um ambiente de amor e conforto, e reconhecia que mesmo os castigos do passado traziam consigo carinho e a medida precisa de disciplina para permitir o aprendizado. Não fora sempre presente, também, mas de modo algum poder-se-ia chamá-lo de pai ausente; e, com efeito, o tempo que passavam juntos era sempre intenso. Não tinha reclamações neste sentido: o pai fora um suporte durante toda sua vida, e até quando sua ausência fora necessária para permitir o crescimento, este teve tal sensibilidade - não sem uma certa dose de desafio, também.
De fato, o pai adorava desafiá-lo. Desafiava a todos, na verdade, e jamais cansava de contar vantagem. A maioria das pessoas o tomava por arrogante devido a isto, mas o filho - talvez por também ser assim - percebia que não era nada da sorte, senão uma forma de cativar as pessoas para a atividade em questão e extravasar os mais intrínsecos urjos humanos de combate. Nunca se abatia quando perdia, e sim ria e exigia uma revanche; e quando se tratava dele, seu filho, mostrava mesmo um contentamento pueril quando da derrota - ainda que jamais, apesar de mais forte, cedesse a vitória injustamente.
Se ele, o próprio filho, não entendera a atitude do pai, o que diria o mundo? O pai se empenhara em muitas iniciativas e, devido a desdobramentos ao longo de toda sua vida, teve a oportunidade de utilizar de seus recursos em prol de inúmeras causas. Como resultado, uma miríade de pessoas contava com o a constante possibilidade de recorrer ao seu auxílio. Muitos o conheciam. O que diriam, agora? Outros havia para assumir tal lugar - o próprio pai sempre fizera questão de não ser a única alternativa. Não obstante, como poderia justificar seu sumiço?
Não poderia.
O velho já não estava ali; como o vermelho da rosa ao chão, que de pronto se esvaíra na neve.
Ali próximo havia um jardim, e outras flores mais o enfeitavam.
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