Sorveu um gole do seu suco de laranja. Sentados ao banco da praça, podiam acompanhar todo o movimento daquele fim de tarde de feriado - casais trocando carícias, crianças jogando bola na grama, adultos cuidando de preparativos, o sol sobre tudo e todos tornando o dia tão gostoso.
O pequeno rádio quebrava a harmonia do lugar com notícias estranhas de lugares distantes.
- Ditadores, terrorismo... Guerra. Dá para acreditar nesse trem?
Bebeu mais um pouco do suco; adorava aqueles pedacinhos de laranja que vinham junto.
- Nem, mano. Nem uma arma eu nunca vi.
Deitou o dedo. Clique, clique, clique.
Três silhuetas caíram.
- Vai, vai, vai! Só falta o cara lá! - gritou a voz ao lado.
Tardou um pouco a entender, o corpo antes mesmo já seguindo o caminho da trilha. Nem ouvia mais o barulho dos tiros. Aliás: ouvia, mas não escutava. O dia-a-dia no exercício da profissão lhe pusera naquela situação cretina de explicar que era disparar um fuzil com a mesma naturalidade de quem bate o ponto ao chegar no trabalho.
Sua rotina não era a única assim, e atravessava a vida de milhões de outros.
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