quinta-feira, 19 de maio de 2011

Sina

"Eu não quero ser um produto do meu meio. Eu quero que o meu meio seja um produto meu. (...) Ninguém nessa vida vai lhe dar nada: você é que tem que tomar."
- Frank Costello em Os Infiltrados.

- Venha, pequeno. Você já sabia disso - bem lá no fundo, você sabia - disse, alheio ao olhar atordoado do outro.
A chuva caia torrencial lá fora, e mesmo no escuro do quarto o velho homem podia reparar nas nuances do rosto do filho - as quais revelavam não o choque de presenciar algo jamais imaginado, o que por si já seria assustador, mas sim o terror de vivenciar aquilo que fora concebido nos pensamentos mais sombrios, aquilo que em si considerava diferenciá-lo da humanidade como um ser à parte, aquela mesma energia destrutiva que na natureza faz a viúva-negra decapitar o marido e os lobos devorarem sua prole, no próprio pai.
- Somos diferentes deles, e não podemos lutar contra isso; você sabe que não pode. - O velho apontou para o peito do filho, onde jazia uma enorme queimadura. - Você nunca me disse do que se tratava. Jamais precisou; eu sei.
Podia contar nos dedos as pessoas que sabiam da origem real da marca, sequer precisaria de uma mão inteira - e seu pai não figurava entre elas. A cicatriz remontava a um acontecimento terrível de sua infância, um que compartilhava apenas e tão somente com aqueles que haviam mostrado prova irrefutável de confiança, e mesmo a esses sob a mais alta cautela - isso tudo não por vergonha, mas por arrependimento e pela certeza de que revelá-lo pô-lo-ia permanentemente sob a suspeita daqueles que deveriam ser seus iguais. Aquela marca era a prova de que ele não era um deles.
- A humanidade sonha com aceitação. Diariamente pessoas abaixam a cabeça, vão a trabalhos que detestam, convivem com pessoas que lhes tratam como lixo e se prostram a ditames que sequer questionam apenas para poder identificar-se, fazer parte de um grupo. Mas você nunca precisou disso... apesar de jamais se haver aceitado. É só o que falta para chegar ao sublime.
Aquilo poderia parecer um típico e batido discurso de auto-aceitação, mas com efeito ninguém além do filho saberia ler nas entrelinhas o que estava realmente sendo dito. Este sabia, muito embora desejasse não sabê-lo, que o pai falava do mais primal e paradoxal dos urjos naturais, este que em seus sangues corria tão forte: o de gerar caos, destruição, vazio - se era bem verdade que indivíduos como eles eram raros, assim o era unicamente porque senão uma dita sociedade não seria possível. Já não era mais jovem; e agora, sabia, seu pai lhe conclamava a testar os próprios genes, a própria essência do que fora passado de geração em geração em sua família. Logo restaria apenas um dos dois; e se esta essência não resultasse forte suficiente, viral o suficiente, seria o próprio pai.
E com isto não haveria como dizer o que seria feito com sua família, seus amigos, seus conhecidos. Sabia do perigo representado pela figura paterna porque sentia, ele próprio e desde há muito, aqueles ímpetos e sabia aonde necessariamente levariam.
- Não, pai - suplicou - não precisa ser assim. E tudo o que passamos?
O velho levantou a arma, apontou-a rija à frente.
- Foi preparação para isto. Eu não esperava que esse momento fosse nem um pouco menos difícil para você... ou para mim - suspirou, em seu ar a mesma resignada e necessária dedicação ao dever do trabalhador que toda manhã veste os trajes e segue para a labuta.
- O teu fim é o meu, mas te asseguro que ninguém agradecerá por isso.
Disparou.
O filho sentiu uma pontada no ombro direito. Atrás de si um som de faiscar elétrico, as luzes da casa a apagar-se em definitivo, o fornecimento de energia interrompido. E ouviu passos a afastar-se cada vez mais - lenta, calma, seguramente. Continuava vivo porque a questão, sabia, não se tratava de mero e simples abate. Tratava-se, isto sim, de uma prova.
Era chegada a hora de separar a presa do predador.

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