domingo, 11 de setembro de 2011

Nocaute

Olhou o garoto.
Que garra, que vontade! Não o via com frequência treinando por lá, e sequer parecia ter muita experiência - não tinha esse traquejo próprio que se adquire quando se luta faz tempo, essa espécie de standartização que ocorre invariavelmente quando se lapida a técnica metódica e laboriosamente -, mas naquele treino, o principal do dia para os maiores lutadores da equipe, lá estava ele e dando trabalho para os topes da academia (houve quem lhe atribuísse um 10 a 9 contra o Digão, o favorito do pessoal, num sparring, mas certamente a pessoa não devia saber nada de scoring).
Deteve-se a olhar o garoto: músculos trabalhados, apesar de nitidamente não por profissionais; inteligência nos golpes, ainda que carentes de aperfeiçoamento; e sobretudo os olhos.
Os olhos.
Socava e se movia e apanhava e caía, se levantava e apanhava e tinha sempre aqueles olhos. Olhos de quem não se deixa abater por pancada que seja, do oponente ou da vida; olhos de quem sabe o que quer e que quer com violência, de quem ainda que apanhando vai continuar de pé até que as pernas aguentem; até o nocaute.
Nocaute.
Se aproximou do ringue, vendo o pessoal que estava assistindo a luta levantar o garoto e levá-lo para fora, o oponente do outro lado exausto e consternado. O garoto dera trabalho o tempo inteiro, e todos detestam esses tipos que lhes fazem sair da zona de comforto - ainda que sair da zona de comforto, e isso estranhava que todos esquecessem com tanta facilidade, seja essencial ao crescimento.
Depois veio a saber que o garoto não era tão garoto assim; era uns bons anos mais velhos que a maioria dos jovens que treinavam no projeto - do qual sequer participava, na verdade: não apenas já não era da idade permitida como trabalhava para manter a própria família, o que não lhe permitia as horas de dedicação ao treino necessárias. As aparições esporádicas se davam justo em eventuais folgas do trabalho, e soube que eram a convite de conhecidos - por essas e outras razões, apesar das qualidades que lhe punham como potencialmente se não um campeão, pelo menos um grande lutador, não tinha suporte.
Não tinha quem o treinasse.
Vocação e vontade eram essenciais à vitória; mas nesse ramo, assim como na vida, não ter quem lhe deposite a fé é uma sentença quase certa ao fracasso.
Olhou ao fim do treino o garoto indo embora, uma bolsa de gelo sobre o olho roxo.
Que lástima.

Nenhum comentário: