"Há em cada ser humano um grande veio de violência que, se não canalizado e compreendido, irrompe em guerra e loucura."
- Sam Peckinpah.
A recente proposta de um projeto de lei que criminaliza o uso da chamada "palmada disciplinatória" tem gerado uma série de debates na sociedade brasileira. Discutem-se questões como a autoridade do Estado para se imiscuir na vida privada de famílias; a tendência moderna de estupidificação dos pais, tidos como cada vez mais incompetentes; o que é violência etc.
Todos tendem a ter sua própria inclinação natural quanto a cada um desses temas. De minha parte, como tanta gente, não acredito que as tais palmadinhas possam de modo algum representar ameaça para a criança ou seu caráter. Trata-se apenas de um castigo, um mecanismo para a criança aprender a não fazer o que é errado.
Ao menos em tese, porque confesso que essa idéia não entra direito em minha cabeça - é possível que seja necessário e acredito estar preparado para tal, mas definitivamente não me apraz a idéia de uma educação baseada no castigo, no medo. Existem motivos para haver proibições (ao menos seria razoável que houvesse), então por que seria necessário apelar para o castigo, e não para a razão - explicando os supracitadas motivos para o pequeno mancebo -? Eu realmente espero que nasçamos com essa tendência à compreensão.
Mas é possível que durante os estágios iniciais de formação do indivíduo este não tenha essa capacidade; talvez não consiga racionalizar as coisas perfeitamente (pondo assim, parece até razoável). Neste caso, a aplicação do castigo me pareceria realmente necessária.
Mas - então por que a punição física em particular seria assim tão execrável?
Talvez pela idéia de que se estaria ensinando o pequeno a noção de que a violência resolve os problemas da vida, fato sabidamente equivocado no mundo moderno de hoje? Não, não... certamente não é essa a razão. Qualquer mecanismo de castigo é inadequado para uso em sociedade - são utilizados em crianças devido aos aplicadores serem seus responsáveis, e esperar-se destes que logrem educar seus filhos. Não - castigo é necessariamente uma relação entre criança e responsável.
Isto posto de lado, parece-me que o componente degradante da palmada - e a meu ver do castigo como um todo, na verdade - é a percepção de agressão desmedida. Mas isto não é exclusivo da punição física! Agressões verbais ou comportamentais existem aos montes, e sem dúvida podem fornecer uma miríade muito maior de possibilidades de dano - psicológico - à criança do que a agressão física - um pai que chama seu filho de incompetente (só o tamanho da palavra já assusta o pobre coitado!), uma mãe que aplica castigos desproporcionais, outra que trata sua prole com indiferença (sem dúvida, violência das maiores)...
A covardia, enfim, de violentar a criança, pequeno ser indefeso, de modo excessivo - é isto que nos repugna, isto que as pessoas associam ao ato da palmada e da agressão física. Muito embora - é o que parecem não perceber - tal característica não se limite ao que é físico e tangível.
É engraçado: sou muito lento, tolo - tive que pensar um bom tanto para poder de minha parte concluir estas coisas, mas uma amiga mo expôs com tantas palavras menos! e tão mais didaticamente! O último parágrafo é basicamente parafraseado de suas palavras.
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